ENSAIO

Inuit, Ártico Canadense

Fotografias e Texto: Ed Maruyama


Apesar de minha parca participação, gostaria de compartilhar uma das minhas mais importantes experiências fotográficas. Quando morava em Iqaluit (capital do território de Nunavut), fui convidado para documentar o descobrimento dos monumentos em homenagem às famílias Inuits exiladas no Ártico Canadense na década de 50.

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As duas esculturas foram feitas por escultores locais, com pedras locais, para homenagear as famílias que pereceram no Ártico Canadense na década de 50.
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Na cerimônia, houve a presença de altos dignitários, a Premier do Canadá, o Ministro dos Negócios do Norte e Aborígenes (INAC), prefeitos e presidentes de associações relacionadas aos Inuits.

Para quem não conhece a história dos Inuits (na época Esquimós), na década de 50, em plena Guerra Fria, o governo canadense realocou 87 famílias do norte do Quebec para o high arctic, mais precisamente em Resolute e Grise Fiord. Clique aqui para ver as duas localizações.

A ideia seria manter a presença no norte para assegurar a soberania na região. Pelo fato dos Inuits terem afinidade com o frio, o governo federal achou que eles não teriam problema em se adaptar à mudança. Para tornar as coisas mais fáceis, anunciaram a presença de caça e pesca abundantes… Assim como muitos “berries”, como seria comum no norte do Quebec.

Então, muitas famílias aceitaram a proposta, já que foram prometidas passagens de volta em dois anos, caso não gostassem do lugar. A dura realidade foi que eles encontraram apenas pedras e mais pedras e, infelizmente, muitos não sobreviveram.

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Hoje, apesar das dificuldades encontradas, Resolute e Grise Fiord, respectivamente, tornaram-se lares de 250 e 140 pessoas. São as comunidades mais remotas no Canadá, e talvez, no mundo. Estão a cerca de 1580 e 1500 km de distância de Iqaluit, ou seja, cerca de 3400 e 3470 km de distância de Ottawa, mas ainda assim, uma experiência inimaginável ir para esses lugares!!!

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O sol desaparece por cerca de 3 meses no inverno e, no verão, não escurece por cerca de 3 meses também!

Algumas fotos podem parecer chocantes, como é o caso da caça às baleias, mas posso afirmar que nada é perdido e ninguém mata por esporte!!! Quando as praias se reduzem a pedras, diria que o fato de se conseguir comida passa a ser realmente questão de sobrevivência.

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A caça é feita com arpões, de maneira tradicional, e passa a ser um evento realmente comunitário, onde todo mundo participa, puxando a baleia, abrindo, limpando, dividindo e comendo.

A título de informação, um amigo e eu nos dispusemos a colocar de pé algumas das cruzes que estavam tombadas no cemitério: uma das experiências mais marcantes que tive, pois é basicamente impossível cavoucar e fazer buracos – pedras e pedras! Foi difícil colocar as cruzes de pé, imagina-se abrir uma cova, ainda mais a temperaturas de -40ºC.

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Cemitério: chão de pedra e temperaturas abaixo de 0ºC.

Para quem gosta de informações técnicas, na cobertura do evento usei flashes externos, Elinchrom Quadra (400Ws) e Ranger (1100Ws), mais pocket wizards e câmeras/lentes Nikon.

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Aurora boreal sobre o céu da Angel Street, Iqaluit. Alguns Inuits acreditavam que os espíritos de seus antepassados poderiam ser vistos nas auroras boreais.
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A beleza gélida da região do Ártico Canadense.
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Sobre Ed Maruyama

Nascido no Brasil, em São Paulo/SP, o fotógrafo Ed Maruyama mudou-se para o Canadá em 2001. Logo transferiu-se para Iqaluit, capital do território de Nunavut, ártico canadense. Além do trabalho técnico na área de internet – tornou-se o principal especialista em TI da cidade -, Ed levou na bagagem a paixão pela fotografia. Estava profundamente envolvido em muitos eventos e organizações comunitárias. Logo tornou-se um dos principais fotógrafos da cidade e foi o fotógrafo oficial para o maior encontro de artes em Nunavut, o Alianait Arts Festival. Seus trabalhos apareceram em revistas como a Colours Magazine (Benetton) e em banners no pavilhão Northern House durante as Olimpíadas de Vancouver, 2010. Em 2014, mudou-se para Toronto para tornar a Akipari uma realidade. Akipari é uma empresa de produção criativa que presta serviços de transmissão e produção de videografia, fotografia, design, marketing e suporte de negócios, onde Ed é o Diretor de Fotografia. Uma pequena amostra do seu portfólio também pode ser acessada através do seu website pessoal.

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